" Meus filhos terão computadores , sim, mas antes terão livros, sem leitura, os nossos filhos serão incapazes de escrever- inclusive a sua própria história." Bill Gates

domingo, 1 de março de 2020

UMA CANÇÃO E UM SORRISO

Esse texto traduz uma das maiores experiencias vividas. E que experiência!!

Uma canção e um sorriso



      “ Ando devagar/ Porque já tive pressa / E levo esse sorriso ...”  Sempre que ouço esta música  um sorriso brota de minhas lembranças. Um sorriso de descoberta, de vitória. E que felicidade tive em presenciar esse momento!
      Eu estava lecionando para uma turma de 2° ano (antiga primeira série). Era nova na escola e com apenas poucos anos de magistério. Na verdade, tinha mais experiência com as crianças maiores do que com as menores. E , de repente, estava eu ali, numa escola do interior, tendo que alfabetizar alguns alunos que foram obrigados a passar de ano, porque não tinham mais idade para continuar no antigo C. A . Nunca tinha alfabetizado . Na verdade, eu nem sabia por onde começar!  Fiquei muito angustiada! Tinha duas realidades na sala de aula: crianças alfabetizadas e crianças ( mais velhas) que mal sabiam escrever o nome. Como lidar com essas duas realidades? Que fazer? Como evitar que aquelas, “mais fracas”, não se sentissem diminuídas diante dos colegas?
      Se me perguntarem que método usei, não sei dizer...  O que sei é que novamente a música de Almir Sater me vem a mente: “ É preciso amor / pra poder pulsar”. Acho que foi o amor pela profissão que me fez buscar a solução. Conversei com minha colega da série anterior, peguei umas cartilhas com a direção, li alguns artigos, troquei algumas ideias com colegas, busquei algumas respostas em livros de Paulo Freire e lancei-me ao desafio.
     O dia a dia não foi fácil. No primeiro mês, errei mais do que acertei. Insisti, não desisti. E parte da turma ia andando. Alguns evoluíam, outros não saíam do lugar. E o resto da turma, caminhando a passos largos. Com esses eu pouco me preocupava. Só tinha que prosseguir com o trabalho. Já com os outros, que preocupação! Eu percebia que a maioria deles só ia para a escola por causa da comida. Não tinham ajuda nenhuma em casa. Incentivo? Pelo contrário! Os pais diziam que não davam para o estudo e , coitados, já estavam rotulados de “ burros”. A pior coisa para um professor é tirar da cabeça de uma criança que ela “ é burra”, “ não dá para o estudo”. De tanto ouvirem isso, acreditam. Ainda mais vindo de dentro de casa.! Não culpei os pobres pais. Eles não sabiam o mal que estavam cometendo.
      Além de alfabetizar, eu queria integrar as crianças. Queria que elas se sentissem uma turma. Passei a levar livros de histórias para a sala de aula. Nós tínhamos um momento de leitura diária. Deixava que manuseassem os livros e depois lia para elas. Era maravilhoso ver seus olhinhos brilhantes diante dos livros. Tinham um cuidado ao tocá-los como se fossem partir em mil pedacinhos. E foi assim que vi pela primeira vez os olhinhos de Rodrigo em cima de um livro. Em algum momento, aquele livro despertou-lhe a vontade de ler.
      Um livro e uma criança. Uma criança e uma vontade imensa de desvendar o segredo das palavras. Rodrigo se lançou ao mundo dos livros. A cartilha, já suja e rasgada, agora era companheira fiel. Naquele dia, quando fui tomar-lhe a lição, Rodrigo estava diferente. Nem eu nem ele havíamos percebido a descoberta ainda. E, quando ela veio... Quando ele se viu lendo sozinho, sem minha ajuda, abriu um sorriso largo. Era um sorriso branco, puro, alegre. Sorriso de vitória. Quando olhou para mim, disse: “ Tia, por que  você está chorando?” . Não sabia o que dizer. Eu havia conseguido. Rodrigo estava lendo! “ É preciso a chuva para florir”...
      Depois de Rodrigo, outros também conseguiram. Alunos até mais trabalhosos, mais velhos que Rodrigo. A satisfação foi a mesma, mas o sorriso daquele menino ficou marcado  para sempre...
      Nunca pensei que uma canção mexesse tanto com minhas lembranças. “Hoje me sinto mais forte, /Mais feliz, quem sabe /Só levo a certeza/ De que muito pouco sei/,Ou nada sei” ...



Mônica Miranda Carneiro da Silva - maio 2014


UMA REFLEXÃO

Todo início de ano merece uma reflexão. Conheço esse texto há muito tempo, mas nunca foi tão atual. Vale a reflexão.

O lápis e o apontador





   Estamos no tempo do computador, mas gosto de, às vezes escrever com lápis. É uma sensação diferente. Você vê não apenas o que escreveu, mas também sua letra, de seu jeito próprio. Não sei por que, mas sempre gostei daquela cor cinza da escrita do lápis.
   Outro dia estava escrevendo. Percebi que o lápis estava falhando, não estava escrevendo direito. Peguei um apontador que tenho e que guardo comigo há bastante tempo, e, com poucos giros, o lápis estava pronto para escrever de novo. Um pouco menor do que antes, mas pronto para escrever.
   Enquanto apontava o lápis, fiquei observando. Na vida da gente também é assim. Depois de algum tempo, é preciso apontar o lápis. Vivemos as preocupações do dia-a-dia, as muitas atividades, o cansaço, a rotina, e eles vão fazendo com que o lápis de nossa vida vá ficando rombudo, já não escrevendo bem nossa história. É hora de passar pelo apontador.
   São os muitos os apontadores que podemos usar: um dia de descanso, um final de semana com quem gostamos,  uma noite bem dormida, um papo aberto e sincero com um amigo, um abraço desinteressado, um aconselhamento com alguém mais experiente, um momento de oração, de encontro pessoal com Deus e com nós mesmos, a leitura de um bom livro, um bom filme, um dia de retiro, um mês de férias, um curso de atualização... São muitas as oportunidades.
   Passar pelo apontador não deve ter sido agradável para o lápis. Afinal, para que a ponta ficasse evidente e apropriada para escrita, ele teve que se deixar cortar. E deixou-se cortar na “carne”. Mas, não tinha outra saída: ou enfrentava o apontador ou não podia mais desempenhar sua função de escrever. Um lápis sem ponta é incompleto. Não serve para nada. É apenas um enfeite.
   Penso que, muitas vezes, somos mais medrosos ou covardes do que o lápis. Quantas vezes sentimos que estamos perdendo a capacidade de escrever por causa da rotina, pelo desleixo, pela acomodação, pelo não-atualização, pelo descuido das pequenas coisas mas, não temos coragem de enfrentar o apontador e nos refazer? Acho que temos medo, porque sabemos que afiar a ponta significa, quase sempre, cortar excessos, aparar o que está sobrando e dificultando, retomar caminhos, abandonar atitudes e vícios, às vezes, já arraigados, mudar comportamentos, olhar em outras direções, pedir desculpas, superar o egoísmo, o narcisismo, perdoar... E isso é muito difícil.
   Mas voltemos a história do lápis e de apontador. Ao passar pelo apontador, o lápis foi cortado em sua parte externa, mais também em seu interior. O carvão interno também foi modelado, renovado. Para que a escrita fique perfeita, a ponta precisa ser feita por inteiro. O mesmo acontece conosco. Ou apontamos nosso lápis e refazemos nossa capacidade de escrever história, deixando-nos modelar externa internamente, ou seremos como um lápis sem ponta, sem utilidade, sem significado.
   Estamos recomeçando um novo tempo. É hora de escrevermos uma nova história. Que tenhamos bem apontado nosso lápis. 

 Texto de: Padre Genésio Zeferino da Silva Filho 

UMA CANÇÃO E UM SORRISO

Esse texto traduz uma das maiores experiencias vividas. E que experiência!! Uma canção e um sorriso       “ Ando devagar/ Porqu...